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A urgência de um novo caminho

O envolvimento dos leitores num projeto de proximidade, como é o nosso, e a sua disponibilidade para contribuirem para que possamos fazer mais e melhor jornalismo, é crucial. É também um ponto de honra, particularmente simbólico num dia como o da Liberdade de Imprensa – aquele que escolhemos para anunciar publicamente o nosso novo caminho.

Caros leitores,

Escrevo-vos num dia simbólico: a 3 de maio assinala-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. E é de liberdade que hoje vos quero falar.

O acesso a informação fidedigna é um pressuposto fundamental da vida em democracia. Contudo, o jornalismo fiel à sua matriz de serviço público é um bem cada vez mais raro e pouco valorizado – quer pelas instituições, quer pelos cidadãos.

O mediotejo.net nasceu há quase 7 anos com a ambição de fazer bom jornalismo de proximidade, para servir os 250 mil habitantes dos 13 concelhos que compõem a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, bem como dos muitos milhares de conterrâneos espalhados pelo país e pelo mundo. Temos contribuído com grande orgulho para fomentar uma maior proximidade entre esta comunidade, que vivia muito afastada, apesar de todas as proximidades culturais e geográficas.

Dediquei grande parte da minha carreira ao jornalismo internacional e aos 40 anos tive uma epifania: era mais fácil um habitante de Abrantes ter acesso ao que acontecia em Nova Iorque ou em Kabul do que saber o que se passava em Torres Novas ou em Tomar. Foi esta a semente do projeto deste jornal, que se lançou em setembro de 2015 sem quaisquer apoios financeiros, apenas com a vontade de um grupo de jornalistas em remar contra a corrente, publicando diariamente informação sobre toda a região – e, sobretudo, informação na qual os leitores pudessem sempre confiar.

Tem sido um caminho especialmente difícil para esta equipa, a quem como diretora não me canso de louvar. Todos nesta casa trabalham muito e ganham pouco. Os dias têm sempre horas extraordinárias, a semana às vezes começa ao domingo e a vida pessoal é demasiadas vezes prejudicada, tudo em nome de um “bem maior” que, como jornalistas, jurámos cumprir – o dever de informar.

Somos poucos para cobrir uma região tão grande – 7 jornalistas a tempo inteiro –, mas não temos forma de crescer no contexto económico que foi imposto aos jornais digitais, com acesso totalmente gratuito para os leitores.

Depois de muita reflexão, de uma primeira tentativa frustrada de ativar esta Comunidade de Leitores (por incapacidade técnica dos parceiros que então contratámos) e de dois anos de formação com os melhores consultores nesta área, graças a duas bolsas que conquistámos da Associação Mundial de Jornais – WAN-IFRA e Google News Initiative, estamos a reestruturar o nosso jornal e modelo de negócio, para podermos ter um futuro economicamente sustentável e editorialmente revelante.

Consideramos que o envolvimento dos leitores num projeto de proximidade, como é o nosso, e a sua disponibilidade para contribuirem financeiramente para que possamos fazer mais e melhor jornalismo, é crucial. É também um ponto de honra, particularmente simbólico num dia como o da Liberdade de Imprensa – aquele que escolhemos para anunciar publicamente este nosso novo caminho: é urgente valorizar o trabalho dos jornalistas, e têm de ser os próprios jornalistas a fazê-lo primeiro.

A maioria das notícias do jornal vão continuar a ser de acesso livre, mas aqueles que se juntarem à nossa Comunidade de Leitores vão poder ler artigos exclusivos, sobretudo temas de investigação e reportagens de fundo – o tipo de jornalismo que sentimos fazer mais falta e aquele que mais gostamos de fazer, mas que também exige de nós mais tempo, mais recursos e mais investimento.

Além disso, quem nos apoiar terá ainda uma relação mais próxima com o jornal, acesso a bilhetes para espectáculos culturais e descontos em vários serviços: restaurantes, lojas, hotéis, ginásios e livrarias da região estão entre os muitos parceiros desta Comunidade de Leitores, empresas a quem agradecemos a vontade de se unirem a este projeto, numa parceria que queremos reforçar daqui em diante e de que daremos mais informações em breve.

Em resumo, precisamos que, no espaço de 1 ano, 1% dos nossos leitores regulares subscreva uma assinatura mensal de 5€. Pode parecer pouco, mas com esse valor garantiremos a nossa independência e sustentabilidade financeira. É só isso que procuramos, não o lucro desmedido.

Também no mundo do jornalismo se pode aplicar a célebre frase do capitão Salgueiro Maia, há 48 anos: “Há os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que isto chegou. E nós vamos acabar com o estado a que isto chegou.”

Sabemos que temos pela frente um caminho difícil, mas ficarmos parados à espera que o mundo mude não é uma opção. Damos este passo em frente convictos de que cada um de nós, cidadãos, deve assumir uma quota parte da responsabilidade social que se exige para a promoção de uma imprensa livre e de qualidade.

No final da formação “Table Stakes”, que fizemos durante um ano com a Associação Mundial de Jornais, foi particularmente emocionante ouvir as palavras de Douglas Smith, um dos míticos consultores da McKinsey, incentivando-nos a ir em frente. “Vai dar certo, porque vocês são bons no que estão a fazer e sabem o que têm de fazer.”

Eu agradeci as muitas horas de atenção que nos dedicou e disse-lhe: “Também estou confiante. Se não conseguirmos que 1% dos nossos leitores subscreva o jornal… bom, 0,5% já será uma grande ajuda.” Ele fez o silêncio dos sábios e depois pediu a todos que prestassem bem atenção no que eu estava a dizer. “Patrícia… se daqui a um ano 1% dos vossos leitores não estiver disposto a dar-vos uma pequena contribuição, é porque o jornal não lhes faz falta.”

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